A sala é organizada. As flores vermelhas na mesa confirmam a presença feminina no espaço, localizado no 4º andar de um prédio do Centro de Salvador. Um mural com fotos de pessoas desaparecidas chama a atenção. É ao lado dele que Josenilda Ribeiro Lima, fundadora do Movimento Nacional de Busca e Apoio a Pessoas Desaparecidas Simone Pinho, conta um pouco sobre a própria história.
Sem lágrimas e com uma expressão serena, Josenilda narra as lembranças da filha Simone, sem fraquejar. “Uma vez, ela botou o dedo na minha cara e disse que eu tinha a obrigação de ser feliz. Todas as vezes que lembro disso, eu reajo”, confessa.
Há dez anos, Josenilda reuniu toda a força que nem sabia possuir para descobrir o paradeiro de Simone, 26 anos, desaparecida durante uma viagem ao Capão, em Lençóis, no interior da Bahia. “Ela foi no São João. Combinou que iria com amigos, mas que voltava logo”. Simone não ligou para avisar que tinha desembarcado na cidade. Não deu
satisfação, nenhum sinal.
Passado o período da viagem, a data do retorno já apontava no calendário. Ela não havia chegado. Acostumada a saber sobre cada passo dado pela filha, que sempre dizia onde estava e com quem andava, Josenilda se desesperou. Sem qualquer contato, só pensava no pior. “Eu fiquei tão desnorteada que saía de casa e não acertava voltar”, lembra.
Passados dois dias, decidiu arrumar as malas e ir até o local. Percorreu trilhas, andou noite e dia. A angústia aumentava a cada hora. Passou dias no meio do mato, não teve medo. “Dormi no Vale do Paty, com rastro de onça fresquinho bem perto. Quanto maior era o obstáculo, mais força eu tinha. Parecia que não era eu”, diz.
Movimento - Um ano após o desaparecimento de Simone, Josenilda decidiu escrever sobre os detalhes das investigações. Como forma de desabafo, anotava tudo o que acontecia. Contou sobre as diversas viagens para Lençóis, em tentativas frustradas de localizar a garota, relatou que pôde contar com a intensa colaboração dos moradores do local durante as buscas, desabafou sobre o descaso das autoridades.
“Quando eu me dei conta, percebi que tinha um monte de gente na mesma situação e que ninguém ajudava. Percebi que podia fazer alguma coisa”, recorda.
Em dois anos de buscas e expectativas, Josenilda fundava o Movimento Nacional de Busca e Apoio a Pessoas Desaparecidas Simone Pinho. A proposta era driblar o descaso da polícia e amenizar o sofrimento nas buscas de Simone e de outras pessoas. “Eu sempre me perguntei de onde vinha essa força. Tanto para procurar minha filha quanto para procurar os outros.
Não existia obstáculo na minha frente”. E Josenilda anotava cada ação, com a dedicação de quem escreve com fidelidade em um diário secreto. Nada escapava do papel. Cada dia era um novo dia. Mas Simone não aparecia.
Esperança - Josenilda era professora emuma escola de Camaçari (Grande Salvador). Abriu mão do emprego para se dedicar de forma integral ao movimento e à busca da única filha. A vida dela sempre tinha sido conduzida em função de Simone e, agora, não seria diferente. O pai de Simone tinha morrido, e a ela só restava a mãe. As duas moravam juntas. Só elas. Não havia segredos entre uma e outra. “O meu sonho era realizado nela. Era a minha amiga, meu tudo. Com ela, não me faltava nada”, afirma.
Quanto mais tempo passava, mais o coração apertava. E a esperança, tanto quanto a saudade, aumentou quando ela assistiu num programa de TV a uma reportagem sobre o serial killer José Vicente Matias, o Corumbá. Ele estava preso em São Luís do Maranhão e havia executado seis mulheres pelo Brasil, uma delas na Bahia: em Lençóis.
O ano era 2005 e a intuição materna de Josenilda a obrigou a descobrir mais informações sobre o criminoso. “Fui até a Polinter e consegui fazer com que o delegado Walter Seixas entrasse em contato com a polícia de São Luís, para que ela questionasse esse homem”. Uma foto de Simone foi mostrada a Corumbá, que confirmou ter amarrado,
matado e comido partes do corpo da jovem, que carregava um periquito no ombro.
Era ela. Era Simone. Com a certeza da filha morta, só restava a Josenilda encontrar os restos mortais para sepultá-los. “Eu não sei avaliar se a angústia maior era a de saber que ela estava morta ou de saber o que tinha acontecido”, revela. Naquele momento, tudo o que ela queria era olhar para a cara do assassino e perguntar o motivo de tamanha crueldade.
Corumbá foi trazido à Bahia para indicar o local exato em que tinha enterrado o corpo de Simone. Josenilda acompanhou tudo. Esteve presente no momento da exumação dos ossos da filha e não titubeou. “Na hora, eu podia ter ficado com vontade de matar ele, mas a sensação era a de que alguém estava me mandando perdoá-lo”.
Josenilda pegou no ombro de Corumbá e disse desejar para ele o perdão de Deus, assim como ela o tinha perdoado. “Ele chorou. Eu vi ele chorando. Eu não tive nem tempo de chorar. Falei tudo o que tive vontade”. A história chegava ao fim, após 5 anos, 5 meses e 28 dias de luta. Desde então, o exemplo de Josenilda serve de alento para
tantas outras mães que procuram o Movimento Simone Pinho. “Isso aqui existe por ela. Costumo dizer sempre que pior do que a certeza da fatalidade é a angústia da incerteza”.
Ela continuou a anotar os detalhes das buscas e, ainda este ano, lançará o livro Na Trilha da Esperança, com todos os registros reunidos.