Já convencida de que se trata do corpo da filha, a mãe de Érica dos Santos Calmon, 15, uma das quatro pessoas desaparecidas depois de operação da Polícia Militar (PM) realizada na última quinta-feira, em Pero Vaz, recebeu com tristeza a informação de que dois corpos foram encontrados, nesta terça, nos arredores da Estrada da Cascalheira, Camaçari (Grande Salvador).
Natalice Fernandes, 34, que durante seis dias peregrinou a procura da garota em hospitais e no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IMNL), disse que a identificação do corpo da adolescente, ao ver imagens pela TV, só fez aumentar a “sede de justiça”.
Os indícios dos dois corpos encontrados nesta terça apontam que os cadáveres são de duas das quatro vítimas que estavam sumidas. A confirmação das identidades pode ocorrer nesta quarta, com reconhecimento de familiares no Instituto Médico-Legal Nina Rodrigues.
O primeiro corpo, do sexo feminino, foi localizado nas proximidades de uma adutora, na comunidade do Machadinho. Apesar do estado de decomposição, foi possível verificar uma tatuagem (contendo a imagem de uma flor e folhas) na região do cóccix da vítima – que vestia short jeans e blusa preta. Tranças de cabelo estavam espalhadas ao lado do corpo. Características coincidentes às da estudante Érica dos Santos Calmon, 15 anos, uma das desaparecidas.
O outro corpo, de um homem, estava a cerca de 500 metros do primeiro. Enterrado em cova rasa, às margens da estrada vicinal, que dá acesso ao balneário do Jorrinho, a presença foi percebida por populares, por conta do odor putrefato. Ele trajava apenas bermuda e camisa azul. Ao desenterrá-lo, peritos do Departamento de Polícia Técnica encontraram uma cortina e um lençol.
“Isso revela que foi trazido de uma residência. Detectamos também que os dois corpos têm as mesmas características de tempo de decomposição, em torno de quatro a cinco dias. Em ambos, há marcas similares às produzidas por tiros, mas somente a necropsia vai precisar se foram disparos”, disse o perito José Carlos Montenegro.
Há suspeitas de investigadores da 2ª CP (Liberdade), à frente do caso, que o corpo seja de Luís Alberto Pereira dos Santos, 33, ou de Itailson Barreto dos Santos Epifânio. A quarta pessoa desaparecida é Alessandra de Jesus Santos, 17.
Para ligar ainda mais o achado ao caso do Pero Vaz, próximo à cova rasa os peritos recolheram uma fatura de cartão de crédito em nome de Adailton Cruz Santos – justamente a identificação de um dos mortos na ação da Polícia Militar.
Mesmo recebendo ameaças por celular, a mãe de Érica afirmou que não vai desistir: “Vou processar o Estado. Não vou ter medo das ameaças. Minha filha era uma criança. Vou até o fim. E se eu amanhecer morta, foi o mesmo que matou minha filha”.
Por telefone, a promotora Isabel Adelaide de Andrade Moura, coordenadora do Grupo de Atuação Especial para o Controle Externo da Atividade Policial (Gacep), do Ministério Público do Estado (MP-BA), disse que vai acompanhar o reconhecimento do corpo da adolescente, no IMLNR, nesta quarta pela manhã.
A ação no bairro foi realizada por guarnições da 37ª Companhia Independente da Polícia Militar (Liberdade) e das Rondas Táticas Motorizadas (Rotamo). O major Alberto Beanes, que comanda a 37ª CIPM, disse que seis PMs, em duas viaturas, estavam diretamente envolvidos na ação policial, embora moradores falem em mais de vinte.